{"id":101703,"date":"2019-02-19T08:45:04","date_gmt":"2019-02-19T11:45:04","guid":{"rendered":"http:\/\/bestcars.uol.com.br\/bc\/?p=101703"},"modified":"2021-03-23T09:09:32","modified_gmt":"2021-03-23T12:09:32","slug":"o-carro-os-bancos-de-couro-e-os-impostos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/autolivraria.com.br\/bc\/informe-se\/colunas\/carro-micro-macro\/o-carro-os-bancos-de-couro-e-os-impostos\/","title":{"rendered":"O carro, os bancos de couro e os impostos"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-78831\" src=\"https:\/\/autolivraria.com.br\/bc\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Carro-Micro-e-Macro-2.jpg\" alt=\"\" width=\"696\" height=\"107\" srcset=\"https:\/\/autolivraria.com.br\/bc\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Carro-Micro-e-Macro-2.jpg 696w, https:\/\/autolivraria.com.br\/bc\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Carro-Micro-e-Macro-2-340x52.jpg 340w, https:\/\/autolivraria.com.br\/bc\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Carro-Micro-e-Macro-2-222x34.jpg 222w\" sizes=\"(max-width: 696px) 100vw, 696px\" \/><\/p>\n<h2>Vivemos no maior exportador de carne bovina, mas falta couro para os autom\u00f3veis: por que isso acontece?<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Houve um tempo em que os \u00f4nibus da via\u00e7\u00e3o Cometa tinham bancos estofados com couro. A alega\u00e7\u00e3o da empresa era de que o material durava mais e era mais leve que o pl\u00e1stico, al\u00e9m de ser poroso, portanto mais fresco que o pl\u00e1stico usado pelas demais empresas. Eram tempos em que \u00f4nibus raramente tinham ar-condicionado e os passageiros estavam impostos ao calor e ao frio, este muito mais intenso do que hoje.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1960, carros como o <a href=\"https:\/\/www.autolivraria.com.br\/cpassado2\/fnm-2000-2150-1.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">FNM 2000 JK<\/a>\u00a0e o <a href=\"https:\/\/www.autolivraria.com.br\/classicos\/aero-1.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Willys Itamaraty<\/a> ofereciam estofamentos polidos, quase como de cromo alem\u00e3o, muito lindos. Era o couro para carros de luxo e o pl\u00e1stico para populares. Nos anos 70, o chique eram os bancos de veludo \u2014 veludo mesmo, n\u00e3o um n\u00e3o-tecido felpudo como se passou a empregar depois. At\u00e9 mesmo o <a href=\"https:\/\/autolivraria.com.br\/bc\/tag\/landau\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ford Landau<\/a> vinha com bancos de tecido com a felpa lavrada a navalha, realmente luxuoso. O pl\u00e1stico continuava massivamente usado em carros populares, at\u00e9 que esse feltro felpudo o substitu\u00edsse e o couro voltasse a representar o luxo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>O p\u00f3 de rebaixamento, de in\u00edcio usado em al\u00e7as de bolsas e acabamentos de malas, chegou aos autom\u00f3veis pela Ferrari em partes menos vis\u00edveis dos bancos<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_101704\" aria-describedby=\"caption-attachment-101704\" style=\"width: 340px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/autolivraria.com.br\/bc\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Couro.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-101704 lazyload\" data-src=\"https:\/\/autolivraria.com.br\/bc\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Couro-340x226.jpg\" alt=\"\" width=\"340\" height=\"226\" data-srcset=\"https:\/\/autolivraria.com.br\/bc\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Couro-340x226.jpg 340w, https:\/\/autolivraria.com.br\/bc\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Couro-631x420.jpg 631w, https:\/\/autolivraria.com.br\/bc\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Couro-222x148.jpg 222w, https:\/\/autolivraria.com.br\/bc\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/Couro.jpg 640w\" data-sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" style=\"--smush-placeholder-width: 340px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 340\/226;\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-101704\" class=\"wp-caption-text\">Os bancos de couro, hoje, usam uma mistura de p\u00f3 de rebaixamento com resina, depois aplicada a um tecido r\u00fastico<\/figcaption><\/figure>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o enriqueceu, a produ\u00e7\u00e3o de autom\u00f3veis aumentou, a demanda por couro cresceu mais rapidamente do que a oferta mundial de couros. Os carros passaram a ter revestimento parcial em couro e parcial em courino. Esse material,\u00a0tamb\u00e9m usado em bolsas muito caras como as da Louis Vuitton, \u00e9 feito com a mistura de p\u00f3 de rebaixamento com uma resina, depois aplicada a um tecido r\u00fastico como uma lona. P\u00f3 de rebaixamento \u00e9 o resultado de lixar o couro no curtume para que fique com a espessura homog\u00eanea.<\/p>\n<p>H\u00e1 uns 40 anos, na It\u00e1lia, isso come\u00e7ou a ser usado para fazer al\u00e7as de bolsas femininas e acabamentos de malas. O primeiro fabricante a usar o material em autom\u00f3veis foi a Ferrari, apenas em partes menos vis\u00edveis como as laterais e traseira dos bancos. Pelo tato quase n\u00e3o se nota a diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao couro, s\u00f3 ao dobrar. A apar\u00eancia \u00e9 muito boa, mas o courino esquenta mais, resfria mais e dura menos. J\u00e1 tomei t\u00e1xis que tinham o tecido de base aparecendo, de t\u00e3o atacado o revestimento tinha sido pelo suor humano, al\u00e9m do sol, \u00e9 claro. N\u00e3o se deve confundir esse material com aquele puramente sint\u00e9tico, que recebe variados nomes em cada fabricante e n\u00e3o pode ser chamado de couro conforme a Lei 4.888 de 1965.<\/p>\n<p>Ocorre que vivemos no maior exportador de carne bovina. Abatemos oficialmente 35 e, extraoficialmente, 50 milh\u00f5es de cabe\u00e7as ao ano. Se cada couro tiver 5 metros quadrados (fica entre e 4 m\u00b2 e 6 m\u00b2), teremos por ano um total de 250 km\u00b2, algo como a \u00e1rea do munic\u00edpio de Santos, SP. Mas h\u00e1 ainda um abate anual de 33 milh\u00f5es de porcos que, a 2 m\u00b2 de \u00e1rea, forneceria 66 km\u00b2. \u00c9 muito couro \u2014 s\u00f3 que por v\u00e1rios motivos, dos quais elencarei alguns aqui, nem um ter\u00e7o disso est\u00e1 no mercado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class='code-block code-block-7' style='margin: 28px auto; text-align: center; display: block; clear: both;'>\n<br>\n<div align=\"center\">\n<a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/bestcars.com.br\/bc\/\">\n<img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/bestcars.com.br\/bc\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Auto-Livraria-450x300-quadros.jpg\" alt=\"Auto Livraria\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\"><\/a>\n<\/div>\n<br><\/div>\n\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Do boi para o c\u00e3o<\/h2>\n<p>No Brasil, o couro de porco n\u00e3o vai para o curtume porque o comemos como toucinho. Curiosamente, apesar de sermos o terceiro maior produtor de su\u00ednos do mundo, importamos couro de porco. Problema mais grave, no entanto, \u00e9 que aqui o pecuarista n\u00e3o recebe nada al\u00e9m da carca\u00e7a; assim, n\u00e3o tem interesse em cuidar da pele de seus animais, ora marcando o gado em lugar nobre, ora deixando de evitar os buracos deixados pelos bernes ao sa\u00edrem. O maior problema, por\u00e9m, \u00e9 tribut\u00e1rio.<\/p>\n<p>Para poder estocar as peles, seria preciso fazer uma planta adjacente ao matadouro. Nela seriam retirados os restos de ossos, tend\u00f5es e gordura, aplicando-se o tanino para preparar o que o mercado chama de <em>wet blue<\/em>. Aos olhos do fisco, trata-se de produto processado e paga ICMS. Ora, como o boi \u00e9 isento de ICMS dentro do estado, o matadouro tem muito poucos cr\u00e9ditos e o imposto pesa muito. Por causa disso, muitos frigor\u00edficos enterram as peles, diminuindo a oferta e aumentando o pre\u00e7o.<\/p>\n<p>Finalmente, o Brasil tem o segundo maior mercado de animais de estima\u00e7\u00e3o do mundo e os ossinhos para c\u00e3es t\u00eam um valor agregado que o frigor\u00edfico n\u00e3o consegue ao vender o couro para o curtume. Mesmo partes nobres acabam virando ossinhos. Basta lavar, branquear com \u00e1gua oxigenada e secar em estufa do tipo galeria, embalar e est\u00e1 pronto para nossos c\u00e3es mastigarem. Em outras palavras, o couro de boi acaba no mesmo lugar que o toucinho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>Com isen\u00e7\u00e3o de ICMS para o couro wet blue, os pecuaristas teriam interesse em preservar o material, como ao deixar de usar arame farpado nas cercas<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A exporta\u00e7\u00e3o de couro condicionada, como foi \u00e0 concess\u00e3o de empr\u00e9stimos durante a crise dos anos 80, foi alvo de tese defendida no Itamaraty em 2014. Esse com\u00e9rcio s\u00f3 fez crescer desde ent\u00e3o, sempre condicionada \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o de outros itens, chegando a US$ 240 milh\u00f5es em 2017, deixando-nos sem mat\u00e9ria-prima para processamento local.<\/p>\n<p>Em 2006, orientei um trabalho que propunha duas solu\u00e7\u00f5es para a falta de couros, para a qual concorre a exporta\u00e7\u00e3o. A primeira hip\u00f3tese seria que os pecuaristas recebessem o couro de volta e montassem uma cooperativa adjacente ao matadouro, fornecendo o <em>wet blue<\/em> para os curtumes. Sendo uma cooperativa de produtores rurais e o resultado um produto minimamente processado, haveria uma enorme chance de conseguir a isen\u00e7\u00e3o para o couro desse tipo. A\u00ed, os pecuaristas teriam interesse em preservar o material, deixando de usar arame farpado nas cercas, impedindo a infesta\u00e7\u00e3o por bernes e marcando em partes menos nobres. Isso n\u00e3o vinga por dois motivos, a extrema resist\u00eancia do pecuarista ao cooperativismo e o interesse dos frigor\u00edficos em n\u00e3o os deixar organizarem-se, passando os criadores a controlar pre\u00e7os.<\/p>\n<p>A segunda possibilidade seria que os matadouros passassem a ter curtumes pr\u00f3prios, processando o couro at\u00e9 o acabamento no local. Isso, de longe, compensaria a quest\u00e3o tribut\u00e1ria e ensejaria o aproveitamento de cr\u00e9ditos hoje n\u00e3o aproveitados como de eletricidade, telefonia e at\u00e9 de combust\u00edvel. A ideia esbarra na escala das m\u00e1quinas de beneficiamento de couro, geralmente importadas da It\u00e1lia. Elas s\u00e3o adequadas para cerca de 10 mil touros por dia, enquanto os abatedouros raramente passam das 1.500 cabe\u00e7as por dia.<\/p>\n<p>A meu ver, um tratamento tribut\u00e1rio adequado, com al\u00edquota progressiva, ajudaria muito a aumentar a oferta de couros. Seria tamb\u00e9m necess\u00e1rio que o Confaz (Conselho de Pol\u00edtica Fazend\u00e1ria) revogasse a cobran\u00e7a no destino para os produtos agr\u00edcolas minimamente processados, tal que os estados agr\u00edcolas ficassem do lado dos produtores. Provavelmente, a oferta de couros seria maior e nossos carros poderiam voltar a ser revestidos com um produto que n\u00e3o esquenta demais, n\u00e3o esfria demais, \u00e9 dur\u00e1vel e lindo.<\/p>\n<a href='https:\/\/autolivraria.com.br\/bc\/informe-se\/colunas\/destaques-colunas\/de-prejuizo-em-prejuizo-a-industria-continua-em-pe\/' class='small-button smallsilver'>Coluna anterior<\/a>\n<p><em>A coluna expressa as opini\u00f5es do colunista e n\u00e3o as do Best Cars<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivemos no maior exportador de carne bovina, mas falta couro para os autom\u00f3veis: por que isso acontece?<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":78830,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_joinchat":[],"footnotes":""},"categories":[4195],"tags":[4196,153],"class_list":["post-101703","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-carro-micro-macro","tag-carro-micro-e-macro","tag-colunas-2"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/autolivraria.com.br\/bc\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/101703","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/autolivraria.com.br\/bc\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/autolivraria.com.br\/bc\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/autolivraria.com.br\/bc\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/autolivraria.com.br\/bc\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=101703"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/autolivraria.com.br\/bc\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/101703\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/autolivraria.com.br\/bc\/wp-json\/wp\/v2\/media\/78830"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/autolivraria.com.br\/bc\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=101703"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/autolivraria.com.br\/bc\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=101703"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/autolivraria.com.br\/bc\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=101703"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}