Outro item que costumava caracterizar grandes marcas e modelos, mas não se via obrigatoriamente em todos os J, era o ornamento de capô criado por Buehrig. Tratava-se de um pássaro de asas abertas estilizado que mais parecia a ponta de uma lança — um perigo potencial aos pedestres. O pára-choque dianteiro lembrava os lábios humanos, com uma barra reta e cromada embaixo e outra com duas ondulações em cima. Mas era o longo capô que dava pistas da estirpe atlética do carro.

Grandes faróis, estepes laterais e o enorme capô eram vistos em outros modelos da época, mas o pára-choque dianteiro do J lembrava lábios com suas ondulações

Foto: H&H Classic Auctions

Sob esse capô se escondia a maior virtude do projeto, o motor de oito cilindros em linha da Lycoming, outra divisão da companhia comandada por Cord. Não era um propulsor tão grande, mas deixava a concorrência comendo poeira em termos de tecnologia e desempenho. Os motores americanos da época eram, em geral, do tipo flathead (cabeçote plano e válvulas laterais), enquanto carros mais sofisticados já traziam válvulas no cabeçote operadas por hastes e balancins.

O "Duesy" J trazia de série alguns recursos dos carros de corrida da marca, como duplo comando e quatro válvulas por cilindro. O conjunto deslocava 420 pol³ (6,9 litros) e produzia a potência máxima (bruta) de 265 cv a 4.200 rpm. Para se ter uma idéia de quanto isso significava na época, o Cadillac V16 de 1930 alcançava, com um motor maior, apenas 165 cv. De longe, o Duesenberg J reinava soberano como o mais vigoroso automóvel americano de seus dias.

Nem todo J trazia este ornamento de capô, um pássaro estilizado com as asas abertas, fator de risco em eventuais atropelamentos

A caixa de câmbio era de três marchas, com alavanca central montada no assoalho. Em segunda marcha já se podia aproveitar boa parte dessa fenomenal disposição e chegar a 150 km/h. A velocidade máxima era da ordem de 190 km/h, o que faz imaginar os riscos de levar um carro dessa época e desse porte com a qualidade dos freios de então. Mas, ainda que pareçam insuficientes para os padrões atuais, os freios a tambor hidráulicos — com servo-assistência variável de 1929 em diante — estavam entre o que havia de melhor naquele estágio da evolução do automóvel. Continua

Constelação de fãs

Um dos mais exclusivos Duesenbergs foi o SSJ, com apenas duas unidades produzidas: uma para Clark Gable, outra para Gary Cooper (acima), dois dos maiores atores dos anos de ouro de Hollywood. Tê-los não só como clientes, mas apreciadores tão entusiasmados da marca, a ponto de encomendarem um modelo exclusivo, deu à Duesenberg um salto de prestígio todo especial, que veio se unir ao brilho conquistado na pista por seus criadores. Não é por acaso que um fabricante tão elitizado era chamado apenas de "Duesy" pelo público em geral — sua fama era enorme. Mas Gable e Cooper não eram os únicos astros do cinema a dirigir carros da marca.

Greta Garbo também teve um Duesenberg, bem como seus colegas atores Marion Davies, Mae West e Joe E. Brown. O magnata americano da mídia Randolph Hearst foi outro proprietário de muitas posses a adquirir um, assim como o milionário aviador, engenheiro, industrial, produtor de cinema e playboy Howard Hughes. E nem só de celebridades americanas foi estabelecida a reputação da marca. A realeza européia também tratou de reverenciar o trabalho dos irmãos alemães, caso do Rei Alfonso XIII da Espanha, o Rei Victor Emmanuel da Itália, a Rainha Marie da Iugoslávia, o Duque de Windsor e o Príncipe Nicholas da Romênia. De 1933 a 1935, Nicholas até correu com sucesso a bordo de um de seus três modelos J em Le Mans.

Nas telas
Aparições de Duesenbergs em filmes são tão raras quanto sua exclusividade sugere. Era mais fácil encontrar um deles na garagem de uma estrela de cinema ou magnata de Hollywood que nas telas, onde o grande público poderia desfrutar da beleza desses modelos.

Entre as exceções estão a clássica comédia Quanto mais quente melhor (Some like it hot), de 1959, dirigida por Billy Wilder, com Marilyn Monroe, Jack Lemmon e Tony Curtis. É um dos filmes mais conhecidos e divertidos da atriz que foi o maior símbolo sexual já criado pelo cinema — Marilyn, é claro. Há outros clássicos contemporâneos ao "Duesy" no filme, como um Cadillac Touring Car 1923 e um Hupmobile 4 Coupé 1925, mas um J 1929 pode ser reconhecido numa breve passagem pelos pára-choques em formato de lábios.

Em Minhas três noivas (Spinout), de 1966, com Elvis Presley, o rei do rock dirige um modelo J Derham Phaeton também de 1929. Há na internet ainda registros de Duesenbergs em filmes como Assim caminha a humanidade (Giant, 1956), com Elizabeth Taylor, James Dean, Rock Hudson, e What ever happened to Baby Jane? (1962), com Bette Davis e Joan Crawford, embora sem modelos especificados. Até o desenho animado Os Simpsons já mostrou um Duesenberg J (imagem acima), um entre tantos ícones americanos retratados nessa atração.

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