Pela corrente da conspiração, Tucker era visto como ameaça aos demais fabricantes por trazer modernidade e segurança muito acima dos padrões da época
No Brasil
Só existem três Torpedos fora dos Estados Unidos: um está no museu da Toyota, no Japão; outro com um particular em Old Oxted, Surrey, na Inglaterra; e o terceiro no Brasil. Trata-se da mesma unidade de cor preta que circulava no país nos anos 50 enquanto o pai do projeto buscava incentivos para a fabricação do Carioca.

O Tucker em questão percorreu um caminho sinuoso e foi perdendo o glamour nesse trajeto. Depois de parar em uma revendedora paulistana, o carro foi adquirido por Agop Toulekian, que o manteve por quase 20 anos. O filho do proprietário afirmou que o carro nunca apresentou problemas mecânicos, embora a parte elétrica fosse seu calcanhar-de-aquiles. Orlando Bombarda foi o proprietário seguinte, mas logo entregaria o carro a Eduardo Matarazzo. Este por sua vez cedeu o veículo a Roberto Lee, pioneiro na criação de um museu para automóveis na cidade paulista de Caçapava, no Vale do Paraíba.

A partir dali o carro começou a declinar. Seu motor traseiro original ficou no Museu Eduardo Matarazzo, em Bebedouro, também no interior de São Paulo. Consta que o Torpedo recebeu outra unidade na dianteira, descaracterizando o projeto original. Com a morte do fundador do museu de Caçapava, todo o acervo foi abandonado em galpões sem condições adequadas e até hoje é motivo de desavenças judiciais na família. O Tucker atualmente está sem motor algum e bastante danificado, motivo de frustração para qualquer interessado na preservação da história do automóvel.
 

Apesar das dificuldades, parte delas inerente a suas ideias avançadas, Preston mantinha o otimismo em realizar o sonho do "carro de amanhã"

Aí entra a teoria conspiratória que explicaria o fracasso de Tucker. Segundo essa corrente, o novo "sonho americano" era uma ameaça que precisava ser abafada — o carro se vendia pelo conceito de seguro e eficiente, algo que deixava os modelos das Três Grandes em desvantagem. A preocupação com a proteção dos ocupantes era tão latente que Preston queria que o carro saísse de fábrica com cintos de segurança de série. Foi o departamento de marketing que conseguiu evitar essa proposta, alegando que os compradores poderiam achar que o carro assim equipado fosse inseguro e mais propenso a acidentes... Na própria Tucker, diretores vindos de outras marcas eram favoráveis a eliminar do carro as principais inovações desejadas por ele.

Em junho de 1948 o empresário publicava em jornais uma carta ao público onde escrevia: "Um poderoso grupo de pessoas, por dois anos, manteve uma campanha cuidadosamente organizada para impedir a opinião pública de colocar as mãos em um Tucker. Essas pessoas tentaram introduzir espiões em nossa fábrica e corromper leais funcionários da Tucker. Elas têm até mesmo porta-vozes em altos lugares de Washington." E finalizava: "Somos otimistas o bastante para acreditar que, uma vez que os fatos [sobre os supostos atos ilegais da concorrência] estejam sobre a mesa, a opinião pública norte-americana seguirá adiante com um grande porrete" — grande porrete, ou Big Stick, era parte de uma frase de efeito de Theodore Roosevelt, presidente dos EUA de 1901 a 1909, ao defender que o país atuasse como polícia internacional no hemisfério ocidental.

Sem matéria   Três nomes se tornaram célebres no caso. Homer Fergunson, político cujo genro dirigia uma das divisões da Chrysler, teria promovido uma verdadeira caça às bruxas. Colaboravam para a situação o promotor de justiça Otto Kerner Jr. e o jornalista Drew Pearson, que usava seu espaço em artigos com críticas severas à Tucker e ao empresário. O próprio Fergunson teria conseguido que o órgão do Imposto de Renda fizesse uma devassa no escritório de Preston. Ainda em 1948 essas informações, que deveriam ser sigilosas, apareciam na coluna de Pearson. Naturalmente, existe a corrente pela qual Tucker construiu o próprio fracasso ao sonhar alto demais e administrar mal a empresa.

Uma atitude criticada da empresa foi oferecer aos compradores em lista de espera uma linha de acessórios, de rádios a malas feitas sob medida para o porta-malas, cuja compra colocaria o nome do cliente em posição privilegiada para receber o carro. Agências do governo não gostaram da ideia e a proposta foi abandonada — não antes de convencer muitos compradores a gastar com adereços para um automóvel que nunca viriam a possuir. A Tucker cobrava também dos interessados em se tornar concessionários, outro público que passou a protestar pela ausência de carros no mercado.

De resto, existia a suspeita sobre as inovações técnicas. Em fevereiro de 1948, em resposta aos pedidos de matérias dos leitores, a revista norte-americana Popular Science argumentava: "Temos perseguido a história Tucker e ainda não a pegamos — e não foi por não termos tentado. Perguntamos como funciona a transmissão. As pessoas da Tucker disseram que era um segredo. (...) Assim, até que possamos fazer um trabalho detalhado, o envelope marcado Tucker em nosso arquivo manterá a inscrição Sem matéria." Continua

O conversível
Existe nos EUA um único modelo conversível de duas portas do Torpedo, aparentemente criado nas instalações da Tucker. As informações são escassas, já que se tratava de um estudo e, por isso, vivia cercado de mistérios. O dono do carro chegou a conversar com um projetista da época, anos depois do fechamento da fábrica. Questionado sobre a veracidade do chamado Projeto Vera, o funcionário respondeu que ele existia, mas acreditava que os desenhos haviam sumido com o encerramento das atividades. Verdade ou não, as imagens mostram um modelo de estilo harmonioso, com portas mais longas que as dianteiras do sedã, mas que não ficou pronto a tempo — a marca deixou de existir antes. Atualmente está em restauração.

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