Com motores de diferentes procedências e alterações discretas na carroceria, o
4/4 mantém-se em produção por três quartos de século (fotos: RM Auctions)
A inglesa Autocar testou em 1978 o Morgan de oito cilindros, assim descrito: “Um carro esporte clássico, ao velho estilo. O motor V8 fornece ótimos desempenho e flexibilidade. A caixa Rover é um aprimoramento. Excelente aderência em estradas lisas; rodar violento atrapalha em curvas onduladas. Um carro que merece os aperfeiçoamentos que espera”. O câmbio era uma boa novidade, pois o Moss anterior não tinha sincronização na primeira e os engates das outras marchas eram bastante precários, não raro exigindo a manobra de dupla debreagem (desengatar, acelerar em ponto-morto para “casar” rotações e então engatar).
A revista concluiu: “Em termos de motor e transmissão, ele está mais soberbo que nunca, fornecendo desempenho magnífico até 160 km/h. E você pode conviver com aquele rodar. Mas parece um desperdício não combinar o motor a um chassi e a suspensões que permitam desfrutar muito mais de seu potencial. Dirigir um carro esporte não deveria ser difícil — e o Plus 8, embora ainda muito divertido, é um trabalho desnecessariamente árduo”.
Em 1981 o 4/4 1600 adotava o motor Ford CVH (usado no Escort europeu) de 96 cv e surgia sua versão TC, com motor Fiat de 1,6 litro e duplo comando no cabeçote — daí a sigla TC, de Twin Cam. O motor produzia 98 cv e a versão, que estava disponível com dois e quatro lugares, marcou o fim de um longo período em que apenas motores fabricados na Inglaterra equipavam os Morgans. Durou quatro anos.
O interior do Plus 8 ganhou refinamento com o passar dos anos, com couro Connolly
e painel de nogueira; os motores de origem Rover também passaram por evoluções
Mais um acréscimo de largura para o Plus 8, passando agora a ter 1,60 m, vinha em 1983 para abrigar as novas rodas de 15 x 6,5 pol. No ano seguinte, o modelo ganhava a opção de injeção eletrônica de combustível Bosch LH-Jetronic no motor cedido pelo Rover Vitesse, com 190 cv. Opcionais de luxo não faltavam: desde estofamento em couro Connolly (o mesmo dos Rolls-Royces) até painel de raiz de nogueira.
Surpresa agradável
O Plus Four ressurgia em 1985 equipado com motor Fiat de 2,0 litros, duplo comando e 122 cv (similar ao que equiparia o Tempra no Brasil) e carroceria 76 mm mais larga que a do 4/4. Para a revista Motor, aquele poderia ser o melhor carro da fábrica de Malvern, com ganhos em engates do câmbio da Seat espanhola, conforto da suspensão dianteira e precisão de direção. Apesar do bom desempenho (0 a 96 em 9 segundos), “o motor não parece esportivo, e sua aspereza marcante acima de 5.000 rpm inibe o uso frequente de toda a faixa de rotações”, argumentava a publicação.
“O novo carro emerge no coração da filosofia Morgan, oferecendo desempenho mais vigoroso que no 4/4 e abrindo mão da potência pura do Plus 8 por um comportamento ágil, preciso e um maior equilíbrio. Uma surpresa muito agradável”, concluiu o teste. Três anos mais tarde, o motor do Plus Four passava a ser o M16 de 2,0 litros, 16 válvulas e 140 cv do Rover 820. O carro passou também a contar com a opção de carroceria de alumínio e escolha entre estribos largos ou estreitos.
O motor Fiat de 2,0 litros adotado em 1985 resultou em um Plus Four equilibrado,
mas a marca logo passaria a usar um Rover e a oferecer carroceria de alumínio
Um catalisador chegava em 1989 para o Plus Four se adequar às normas de emissões, o que custou um pouco do desempenho, com a potência caindo de 140 para 133 cv. No Plus 8 um novo painel de nogueira tornava-se disponível. Para a linha 1990, o 4/4 aposentava o carburador em favor da injeção, com o que a potência foi para 110 cv sem catalisador ou 104 cv com ele. O Plus 8 recebia o motor do Range Rover, com 3,95 litros e 190 cv.
Para a Autocar, “você precisa ir à fábrica e assistir a cada chassi de madeira ser cuidadosamente cortado, modelado e colado antes de receber a carroceria de alumínio”
Os aperfeiçoamentos para o Plus 8 continuavam: no ano seguinte, nova suspensão traseira e catalisador opcional, que baixava a potência do motor 3,95 para 182 cv. Em 1993 surgia o 4/4 1800, com motor Ford Zetec de 1,8 litro, 16 válvulas e 111 cv. Mais cinco anos e o Plus 8 recebia a opção de motor Rover V8 de 4,6 litros e 220 cv junto de bolsas infláveis frontais, portas 5 cm mais longas para facilitar o acesso e rodas de alumínio com fixação por cubo central, opcionais. O Plus Four vinha com a alternativa de quatro lugares.
Para a Autocar, o Plus 8 com motor 4,6 apresentava “desempenho sem esforço, boa construção e caráter único”, sendo o comportamento dinâmico ultrapassado seu maior inconveniente — ao lado das longas filas de espera para receber o carro. “O motor Rover tem mais torque do que nunca e, ao julgar pela facilidade com que o empurra desde a marcha-lenta em quinta marcha, a maior parte do valor máximo deve estar disponível desde o começo. O único momento em que o motor decepciona é acima de 5.000 rpm, o que impediu o Plus 8 de alcançar 96 km/h mais rápido que em 6 segundos”, observou a revista.
Modelos como o 4/4 Fourseater (fotos) e o Plus Four Tourer, com quatro lugares,
foram as alternativas da marca para quem quisesse levar a família em seu Morgan
“O rodar está melhor que em Morgans anteriores, mas isso não é dizer muito”, brincavam os ingleses. A conclusão da Autocar foi: “Não que o Plus 8 não possa competir com esportivos mais modernos — ele é extremamente rápido e custa bem menos do que a maioria das pessoas supõe —, mas existe muito mais em possuir um Morgan que a lista usual de pós e contras. Para a experiência completa, você precisa ir à fábrica e assistir a cada chassi de madeira ser cuidadosamente cortado, modelado e colado antes de receber a carroceria de alumínio esculpida manualmente sob medida para ele”.
Um Morgan todo novo
O 4/4 Fourseater e o Plus Four Tourer, ambos de quatro lugares, passavam a oferecer mais espaço atrás em 1999 com modificações na carroceria. No ano seguinte, além da paralisação — mais uma vez temporária — da produção do Plus Four, era mostrado no Salão de Genebra o Aero 8, que seria colocado nas ruas só em 2001. Tratava-se do primeiro carro realmente novo da marca em décadas. Com motor BMW V8 de 4,4 litros e 286 cv, tinha chassi de alumínio com suas partes unidas por adesivo, embora ainda empregasse madeira na estrutura da carroceria, bastante alterada em relação aos Morgan tradicionais.
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Nas telas
Na comédia policial britânica Parting Shots (1999), um doente terminal resolve se vingar de todos que lhe fizeram mal em sua vida. O filme tem diversas cenas com um Morgan 4/4 de 1997. O Sumiço do Presidente (San Antonio, 2004) é uma comédia de ação, produção franco-ítalo-britânica. Com Gérard Lanvin e Gérard Depardieu, trata-se do sumiço do presidente da república e do policial San Antonio, único considerado capaz de resgatá-lo. Em diversas cenas aparece o Morgan Aero 8.
Na clássica comédia Um Convidado Bem Trapalhão (The Party, 1968), com o astro Peter Sellers, aparece um triciclo Morgan Sports de 1933, sendo erroneamente chamado de Messerschmitt, um minicarro alemão. Um ator indiano chamado Hrundi Bakshi era o proprietário do Morgan na história.
Há outras aparições no cinema de diferentes modelos da Morgan. Um 4/4 de 1956 está no filme francês Nous Irons à Deauville (1962), enquanto um modelo 1963 é visto no filme de terror Devil’s Moon (2004). O mesmo modelo está na comédia O Mundo Segundo Garp (The World According to Garp, 1982) e no italiano Saxofone (1979). Um 4/4 Four-Seater aparece na comédia A Última Loucura de Mel Brooks (Silent Movie, 1976).
Do Plus Four, um antigo modelo 1958 é visto em Favor Não Incomodar (Do Not Disturb, 1965) e outro da época está na aventura ítalo-francesa L’homme de Rio (1964). Um Plus Four Supersports aparece no romance The Right Temptation (2000). Quanto ao Plus 8, está presente na comédia inglesa Quem Não Herda… Fica na Mesma (Splitting Heirs, 1993) e na comédia Suburban Girl (2007).



















