Assim como na vida, a liderança do mercado acompanha
aqueles que têm a coragem de dar o primeiro passo adiante
Há coisa pior que perder tempo assistindo a um jogo de futebol chato, sem propósito, daqueles onde os dois times só estão ali cumprindo tabela? É mais ou menos assim que ficam determinados segmentos do mercado de automóveis durante certos períodos, com carros sem atualizações, mornos, passando anos a fio sem uma novidade sequer. Até que alguém toma uma iniciativa e ataca o adversário. A diversão sobe, o time atacado acorda, começa a se mexer. Se um deles faz gol, então, é agitação na certa. Os técnicos começam a mudar os jogadores e pensar num esquema tático diferente. Tudo graças ao corajoso time que deu o primeiro passo.
Em grande parte, passear pelas concessionárias brasileiras é como entrar numa cápsula do tempo: quase tudo que se vende por aqui já não está mais nos catálogos do mundo desenvolvido. Em colunas anteriores já discuti sobre uma das causas desse fenômeno — a presença das fábricas de automóveis por aqui. Em troca da geração de empregos fabris nas cadeias de produção, acabamos penalizando o consumidor e a liberdade de opções. Fabricar carros localmente exige elevado investimento e, hoje em dia, as organizações empresariais que fabricam carros são lentas e rigorosas ao extremo em aprovar esses aportes de dinheiro.
O resultado é que, uma vez feito, o investimento demora muito tempo a ser amortizado. Quando isso acontece, as matrizes já estão um ou dois (ou até mais) ciclos adiante. Comentei do exemplo do Chile, que importa a totalidade de seus automóveis e, por conta disso, tem uma frota moderníssima, afinada com o estado da arte automotivo, e oferece ao consumidor um leque amplo de opções no balcão de compra.
Por uma questão político-econômica, as marcas tendem a ser muito ativas em seus países natos: veja as marcas francesas, italianas e alemãs
No mercado europeu, por exemplo, há um equilíbrio muito dinâmico, peculiar. São muitas marcas, muitos segmentos e subsegmentos. Vendo de fora, temos a impressão de que tudo é muito rápido ali — e, de certa forma, é uma impressão correta. Eu citaria dois importantes fatores que são determinantes para o ajuste da dinâmica do mercado do velho continente: a diversidade de competidores e o capital local.
Por uma questão político-econômica, as marcas tendem a ser muito ativas em seus países natos. Veja as marcas francesas, italianas e alemãs. Em segmentos como o de sedãs médios, o consumidor chega a ter mais de 20 opções de marcas a escolher, sem contar os modelos e versões de cada. A concorrência agressiva transforma o mercado em uma escada rolante que desce: ficar parado significa declinar; andar lentamente apenas mantém você no mesmo lugar.
Querer crescer no mercado europeu significa muita ousadia e isso mexe o fiel da balança todo o tempo. Desequilíbrio constante; estagnar pode significar prejuízo de bilhões — se não em dinheiro, em fatia de mercado, em imagem de marca.
Sacudir a comodidade
De volta à nossa realidade, quero ressaltar a importância daqueles que dão o primeiro passo, que desequilibram a partida e forçam o movimento dos times adversários. Por aqui a fotografia é mais monótona; contudo, aqueles que deram o primeiro passo foram responsáveis por sacudidas na comodidade das filiais dos grandes fabricantes.
Quem dera todos os segmentos fossem concorridos de maneira tão saudável como o dos sedãs. Estimulados pela ascendência do consumidor a produtos mais sofisticados, os sul-coreanos e japoneses oferecem aqui o que têm de mais avançado, forçando a linha para cima. A Volkswagen traz ao País seus mais recentes produtos, de Jetta a CC. A Ford, aproveitando a produção mexicana para obter custos mais baixos, mantém o Fusion alinhado ao exterior e prepara na Argentina a atualização do Focus. Renault e Peugeot tentam combater com Fluence e 408 e não perder espaço. A Chevrolet, combalida com a “década perdida”, eliminou o Vectra (Astra sedã, na verdade) e decidiu ir de Cruze.
Torço para que os chineses sejam protagonistas dos primeiros passos; quando chegaram, havia a promessa de que fariam algum estrago
Há mais exemplos, mas de modo geral fica claro que aqueles que tomam a decisão de dar o primeiro passo iniciam o movimento de atualização. Além da primazia, levam consigo ganhos importantes na percepção do consumidor em avanço, tecnologia, estilo. Espero ver o movimento no jogo que acontecerá no empobrecido e defasado segmento de subcompactos quando o Volkswagen Up der as caras. De um dia para o outro, o passo dado pela VW vai envelhecer, ao menos uma década, todos os concorrentes.
Torço muito, também, para que os chineses sejam protagonistas dos primeiros passos. Quando chegaram, havia a promessa de que fariam algum estrago. Com o grande aumento de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para importados, a mudança iniciada por eles será mais lenta que o previsto — mas virá, certamente, de forma constante e gradual. Tenho certeza de que eles atingirão muito breve o mesmo nível de admiração que hoje têm os sul-coreanos. Como são novatos têm pouco a perder e, com a energia de sua juventude, podem liderar a mudança desse paradigma de atraso.
Quem estiver de acordo, dê o primeiro passo à frente.
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